quarta-feira, julho 15
quarta-feira, julho 1
sábado, junho 20
Punhal de Prata
(...)
Eis-te,aqui, dona da luz completa
sobre o meu corpo estendida,
exorcizando com um simples gesto
a minha sombra mais escura.
E qual aurora que irrompe na ruína,
fitas-me enamorada frente a frente
enquanto a vida pulsa a cada instante
na tua boca apetecida.
A ti me entrego e me abandono
e me incluo e participo
no longo canto por ti tecido.
Um canto de amantes
que ao fim da noite vão morrer
em sí próprios naufragados
para sempre amanhecidos.
Deixemos Deus entregue à sua altiva indiferença.
Morramos pela luz humana que em nós habita.
Ès tu alâmpada sobre o mundo,
tendo a minha treva por companhia.
Para quê temer a morte
se em nós a vida se fez infinita?
Não vês que a eternidade resplandece
ao ouvir o nosso nome em surdina
no ruído efémero dos dias?
Anda, meu amor, enterra-me decidida
este punhal de prata no meu peito:
só a morte é perfeita - quero realizar-me contigo.
Hoje, a teu lado, estou pronto para ela.
E amanhã será outro dia.
.
Eis-te,aqui, dona da luz completa
sobre o meu corpo estendida,
exorcizando com um simples gesto
a minha sombra mais escura.
E qual aurora que irrompe na ruína,
fitas-me enamorada frente a frente
enquanto a vida pulsa a cada instante
na tua boca apetecida.
A ti me entrego e me abandono
e me incluo e participo
no longo canto por ti tecido.
Um canto de amantes
que ao fim da noite vão morrer
em sí próprios naufragados
para sempre amanhecidos.
Deixemos Deus entregue à sua altiva indiferença.
Morramos pela luz humana que em nós habita.
Ès tu alâmpada sobre o mundo,
tendo a minha treva por companhia.
Para quê temer a morte
se em nós a vida se fez infinita?
Não vês que a eternidade resplandece
ao ouvir o nosso nome em surdina
no ruído efémero dos dias?
Anda, meu amor, enterra-me decidida
este punhal de prata no meu peito:
só a morte é perfeita - quero realizar-me contigo.
Hoje, a teu lado, estou pronto para ela.
E amanhã será outro dia.
.
sexta-feira, junho 5
sexta-feira, maio 22
terça-feira, maio 19
terça-feira, maio 12
quinta-feira, maio 7

(...)
Que perfume é este
que tua pele exala
e sobre mim se derrama
num súbito tremor de claridade?
Ah, pudesse eu tocar tua alma
onde se reflecte puro o firmamento
e a beleza do mundo se espelha deslumbrada
numa contínua festa de estio e primavera!
E pela verdura dos anos beijar teus lábios,
beber a sombra de tantos frutos iluminados!
Leve, tão leve nada mais seria
que ar e brisa e pólen a cintilar ao vento,
a vida mais estéril fecundaria!
in "Nudez"
quarta-feira, maio 6
terça-feira, maio 5
O Muro
Dans le mot amour il y a le mot mur.
Edmond Jabés
Por detrás da noite há um muro.
Minhas mãos o tocam. Soa-me na voz um fragor de pedra.
A solidão me impele a um lamento surdo.
Choro tua memória. Teu corpo a mim entregue.
Entre seda e mel. Lume. Comunhão de labaredas.
Meu rosto não mente: partiste.
Meus olhos te buscam para além deste frio estreme,
desta névoa que envolve meus dias ávida
de lágrimas e agonia.
Sobram-me os gestos, as carícias que não demos,
e o vinho entontecido que ficou em meus lábios a arder.
Não, não me encontres em sonhos
na calidez de teu leito.
Ficou fechado o tempo dos lírios acesos,
das açucenas dos vales,
dos campos irradiando verde,
das corças nuas correndo
em direcção à luz impoluta das manhãs.
Está amargo o coração. Está amargo,
ateando a morte em sua frágil roseira dissecada.
Que sabes tu desta fome inconsútil
envergando o traje amarrotado da indiferença?
Do rubro vinho que em minhas veias corre célere
despertando o fogo mais oculto e mais ardente?
Tanto, tanto esforço dispendido
para que foras nuvem branca, colina aberta,
júbilo constante em meu peito resguardada…
Para que em mim brilhasses destruí
os caminhos da minha liberdade,
acolhi no pensamento a delicadeza do orvalho
e o cheiro da terra molhada que rescende
após a chuva de um longo dia de Verão.
Inventei aves canoras para ti,
pinheirais a ondear ao vento,
manhãs de neblina intensa,
rubros vinhedos,
eloendros em flor,
loiros trigais espraiados na lonjura
e á mobilidade de certos rios impus
a permanência do meu desejo puro.
Bebi a água que te cercava os lábios
com a sofreguidão de um adolescente cego,
atravessei os luminosos poentes que em tua nudez
se perfumavam com as cores de uma aurora radiante
e no surdo sussurrar das fontes soube ouvir
o som da chama que supera a labareda
e a voz do fogo que persiste para além
da combustão das coisas.
Para tocar teu corpo
minhas mãos se encheram de giesta e de urze,
de seiva e resina, de trevos e de espigas.
Cantei-te como quem nega a morte:
fragrante da vida que tua pele esplende,
do aroma que tua boca emana,
da tepidez velada que teu ventre inebria.
Quem és, ó doce respiração de meu sangue?
Ambígua forma que não alcanço,
amarga evanescência,
doloroso fluir de incandescente corpo
que minha carne fazes estremecer
em sua deslumbrada intensidade
e meus sentidos inocentemente florir
e minhas pálpebras irisar,
com tuas silenciosas ondas,
tuas frementes espumas,
teus relâmpagos de frescura,
tuas incontáveis claridades?
Tanta paixão de pranto agarrada aos meus ombros.
Sacudir de todas as raízes,
Assalto de todas as vagas!
Roda, hoje, tiste, interminável, a minha alma.
Pensando, enterrando lâmpadas nesta profunda solidão.
Mas quem és tu, quem és?
quinta-feira, abril 30
quarta-feira, abril 22
terça-feira, abril 21
Arte poética
.
Como um pequeno rebanho
as palavras alinharam-se
em meus lábios
tendo a tua boca
como seu pastor.
.
Como um pequeno rebanho
as palavras alinharam-se
em meus lábios
tendo a tua boca
como seu pastor.
.
segunda-feira, abril 20
quinta-feira, abril 16
.
(...) Porque na vida não há senão dois caminhos : amarmos alguém ou nem chegarmos sequer a nascer. Mesmo que o amor seja também mortal amarmos alguém. Mesmo que o amor se extinga e apague: amarmos alguém. Mesmo que não sejamos correspondidos : amarmos alguém. Mesmo que o amor seja apenas um sonho: amarmos alguém. Mesmo que o amor seja somente uma invenção : amarmos alguém. Amarmos desesperadamente até à nossa própria combustão. Que me importa o efémero perante o teu sorriso de agora ? Que me importa que tudo passe se contigo me perpetuo neste instante? Que me importa o mistério se contigo me sinto já resposta?Falar do além é ser triste aqui. É não acreditar no teu sorriso. (...)
terça-feira, abril 14
domingo, abril 12
quarta-feira, abril 8
terça-feira, abril 7
A velha árvore
.
Para a velha árvore reverdecer
não foi necessária a Primavera :
bastou-me no seu tronco
escrever teu nome.
.
Para a velha árvore reverdecer
não foi necessária a Primavera :
bastou-me no seu tronco
escrever teu nome.
.
quarta-feira, março 18
quinta-feira, março 12
Ao meu amor, doente
.
Não me olhes tão no fundo dos olhos:
amo-te tanto
que de mim próprio tenho ciúmes.
.
Não me olhes tão no fundo dos olhos:
amo-te tanto
que de mim próprio tenho ciúmes.
.
quarta-feira, março 11
A neve dolorosa
.
Rostos. Pequenos rostos
que nos fizeram um dia bater o coração.
Ontem longamente guardados,
hoje facilmente esquecidos
- para sempre abandonados.
Ainda às vezes quando neva nos espreitam
e nos contemplam.
Do lago mais frio da memória
emergem transparentes e vigorosos
restaurando-nos o cântico quebrado
devolvendo-nos a noite perfumada.
Mas já cansados retornam ao oculto
em vago adeus
mergulhando na lágrima não vertida
para serem de novo apenas uma data,
detrito de nós mesmos,
nossa própria solidão.
.
(1996)
Rostos. Pequenos rostos
que nos fizeram um dia bater o coração.
Ontem longamente guardados,
hoje facilmente esquecidos
- para sempre abandonados.
Ainda às vezes quando neva nos espreitam
e nos contemplam.
Do lago mais frio da memória
emergem transparentes e vigorosos
restaurando-nos o cântico quebrado
devolvendo-nos a noite perfumada.
Mas já cansados retornam ao oculto
em vago adeus
mergulhando na lágrima não vertida
para serem de novo apenas uma data,
detrito de nós mesmos,
nossa própria solidão.
.
(1996)
segunda-feira, março 9
sábado, março 7
sexta-feira, março 6
quinta-feira, março 5
Ciência
.
Ergui o rosto para o céu.
Nada me revelaram as estrelas
que o teu corpo não
me tivesse dito já.
.
Ergui o rosto para o céu.
Nada me revelaram as estrelas
que o teu corpo não
me tivesse dito já.
.
quarta-feira, março 4
Frémito
.
Ah, suprema delícia
a tua boca sobre o meu peito,
à ombra desta madrugada
que de luz esplende e irradia!
Como crer na aridez do mundo
se a terra se adornou
com o cintilante aroma de teu corpo,
se tudo é oferenda de primavera em teu regaço,
aragem doirada de perpétuo estio;
se o próprio ar ao respirar-te
se fez verde horizonte de fragrâncias,
ganhando um ritmo
de clara dança e harmonia?
Nenhum vento de secura me perturba.
De teus gestos brotam fontes,
água bebo de tua cintura plena
- ó manancial perfeito!-
e aspiro a frescura de tua pele
com a minha a cada instante confundida.
Quando ao amanhecer
se enchem os céus de um clamor de aves peregrinas
de que pura claridade és promessa?
Que brancura se derrama de cada nuvem
imitando a tua nudez a mim aberta?
Por que voam longe de ti os anjos
se a luz perfeita só no teu rosto existe?
Por que o roçar de suas asas não te visita?
Ah, se eu pudesse ao beijar teus lábios
alcançar de vez a tua alma
e negar esta solidão que me chora ainda!
Morro para mim porque te vivo
e nessa vida mais alta e incessante sei que
ao despertar em ti já não existo-
sou apenas o frémito feliz de uma folhagem,
a linha da tua irradiante fronte,
o límpido regato que humildemente te reflecte.
.
Ah, suprema delícia
a tua boca sobre o meu peito,
à ombra desta madrugada
que de luz esplende e irradia!
Como crer na aridez do mundo
se a terra se adornou
com o cintilante aroma de teu corpo,
se tudo é oferenda de primavera em teu regaço,
aragem doirada de perpétuo estio;
se o próprio ar ao respirar-te
se fez verde horizonte de fragrâncias,
ganhando um ritmo
de clara dança e harmonia?
Nenhum vento de secura me perturba.
De teus gestos brotam fontes,
água bebo de tua cintura plena
- ó manancial perfeito!-
e aspiro a frescura de tua pele
com a minha a cada instante confundida.
Quando ao amanhecer
se enchem os céus de um clamor de aves peregrinas
de que pura claridade és promessa?
Que brancura se derrama de cada nuvem
imitando a tua nudez a mim aberta?
Por que voam longe de ti os anjos
se a luz perfeita só no teu rosto existe?
Por que o roçar de suas asas não te visita?
Ah, se eu pudesse ao beijar teus lábios
alcançar de vez a tua alma
e negar esta solidão que me chora ainda!
Morro para mim porque te vivo
e nessa vida mais alta e incessante sei que
ao despertar em ti já não existo-
sou apenas o frémito feliz de uma folhagem,
a linha da tua irradiante fronte,
o límpido regato que humildemente te reflecte.
.
segunda-feira, março 2
Onda
.
Se te pudesse dizer o som vivo
da mais pura claridade
e oferecer o azul raro que mora
no centro da onda que o mar não dissipou,
se a palavra que de mim se desprende,
como halo submerso da alga que verde emerge
para a orla que os teus passos demarcaram,
se a música florisse de minhas mãos
para a carícia que o teu corpo merece,
então o poema ganharia a fria calidez
do cristal que o fogo namorou
e a água beberia em teus lábios
a forma dos beijos que para ti
tantos anos em segredo sonhei.
.
Se te pudesse dizer o som vivo
da mais pura claridade
e oferecer o azul raro que mora
no centro da onda que o mar não dissipou,
se a palavra que de mim se desprende,
como halo submerso da alga que verde emerge
para a orla que os teus passos demarcaram,
se a música florisse de minhas mãos
para a carícia que o teu corpo merece,
então o poema ganharia a fria calidez
do cristal que o fogo namorou
e a água beberia em teus lábios
a forma dos beijos que para ti
tantos anos em segredo sonhei.
.
sexta-feira, fevereiro 27
quinta-feira, fevereiro 26
quarta-feira, fevereiro 25
Beija-me
.
Beija-me com os beijos da tua boca.
Tuas carícias melhores do que o vinho.
E sê-me luz. Luz total. E água.
Profunda água pelo fogo enamorada,
terra que grita exasperada plenitude.
E frescura. Fecundidade.
Árvores frondosas, ramagens,
verde iluminado,
primavera, enfim.
Que aroma de ti parte? Olor a fruto?
Tua pele é jasmim?
Flor de pura laranjeira?
Pétala de alfena e de nardo?
Oh! Tudo! Tudo em ti é perfume
quando ondeias o corpo lindo!
Teus lábios destilam mel,
teus cabelos a essência feliz do rosmaninho.
És carne, apenas?
Mas sem ti como
explicar a razão de haver no mundo claridade?
.
Beija-me com os beijos da tua boca.
Tuas carícias melhores do que o vinho.
E sê-me luz. Luz total. E água.
Profunda água pelo fogo enamorada,
terra que grita exasperada plenitude.
E frescura. Fecundidade.
Árvores frondosas, ramagens,
verde iluminado,
primavera, enfim.
Que aroma de ti parte? Olor a fruto?
Tua pele é jasmim?
Flor de pura laranjeira?
Pétala de alfena e de nardo?
Oh! Tudo! Tudo em ti é perfume
quando ondeias o corpo lindo!
Teus lábios destilam mel,
teus cabelos a essência feliz do rosmaninho.
És carne, apenas?
Mas sem ti como
explicar a razão de haver no mundo claridade?
.
sexta-feira, fevereiro 20
consaguinidade
.
Há um instante de nudez perfeita
em que o céu e o mar
se tornam tão consaguíneos
que nos é difícil distingui-los.
Assim o meu corpo
se confundisse com o teu.
.
Há um instante de nudez perfeita
em que o céu e o mar
se tornam tão consaguíneos
que nos é difícil distingui-los.
Assim o meu corpo
se confundisse com o teu.
.
quinta-feira, fevereiro 19
quarta-feira, fevereiro 18
Incêndio
.
Tão alto incêndio
na montanha
que parece chegar ao céu.
Mais alto
o do meu peito :
foste tu que o ateaste.
.
Tão alto incêndio
na montanha
que parece chegar ao céu.
Mais alto
o do meu peito :
foste tu que o ateaste.
.
terça-feira, fevereiro 17
Posse
.
Eu canto a nudez de te possuir
dentro de uma voz que para te dizer se abrasa
mas calo-me como apagada água
ante o fogo que significas.
.
Eu canto a nudez de te possuir
dentro de uma voz que para te dizer se abrasa
mas calo-me como apagada água
ante o fogo que significas.
.
segunda-feira, fevereiro 16
.
Dá-me o puro cansaço após o amor
à fresca sombra da tarde.
Agora que é ido o desejo, concede-te
este breve instante de paz e repousa.
Toda a minha vida possui isto:
uma boca a brilhar sozinha em meu peito.
Mas a carne é sonho ao tocar-se nela,
ao senti-la fremente em nossos lábios indefesos;
a carne é já cinza, esquecimento,
frio desolador que se anuncia.
Porém, vê como arde a tua boca
negando o vazio que sempre perto nos aguarda;
vê como arde o meu peito
com um resplendor que por ti jamais se apaga.
“Porquê beijar teus lábios se se sabe que a morte
está próxima, se se sabe que amar é esquecer
a vida apenas, fechar os olhos ao sombrio
presente para os abrir aos radiosos limitesde um corpo?”
Porquê respirar esta luz carnal frente ao curso
de um poderoso rio que cruelmente nos ignora
mas onde de súbito uma gota de orvalho esplende
como uma lágrima nossa?
Não, também eu não quero acreditar numa verdade
que nos livros se lê como uma água,
também eu não posso aceitar essa futura agonia
que reduz a um último estertor
a cálida juventude de um amado corpo.
Quero crer, oh sim, crer que a luz que das tuas mãos
se evola subsiste à melodia triste dessa água,
passageira, quero acreditar no talismã vermelho
que pulsa feliz
em meu peito enamorado só porque o teu nome
fulgura nele como uma estrela obstinada,
nesses olhos que não são feridas mas apenas
frescas margens,
que me devolvem, cada dia, incólume,
o azul das ondas
que contra mim, mortais, embatem.
.
Dá-me o puro cansaço após o amor
à fresca sombra da tarde.
Agora que é ido o desejo, concede-te
este breve instante de paz e repousa.
Toda a minha vida possui isto:
uma boca a brilhar sozinha em meu peito.
Mas a carne é sonho ao tocar-se nela,
ao senti-la fremente em nossos lábios indefesos;
a carne é já cinza, esquecimento,
frio desolador que se anuncia.
Porém, vê como arde a tua boca
negando o vazio que sempre perto nos aguarda;
vê como arde o meu peito
com um resplendor que por ti jamais se apaga.
“Porquê beijar teus lábios se se sabe que a morte
está próxima, se se sabe que amar é esquecer
a vida apenas, fechar os olhos ao sombrio
presente para os abrir aos radiosos limitesde um corpo?”
Porquê respirar esta luz carnal frente ao curso
de um poderoso rio que cruelmente nos ignora
mas onde de súbito uma gota de orvalho esplende
como uma lágrima nossa?
Não, também eu não quero acreditar numa verdade
que nos livros se lê como uma água,
também eu não posso aceitar essa futura agonia
que reduz a um último estertor
a cálida juventude de um amado corpo.
Quero crer, oh sim, crer que a luz que das tuas mãos
se evola subsiste à melodia triste dessa água,
passageira, quero acreditar no talismã vermelho
que pulsa feliz
em meu peito enamorado só porque o teu nome
fulgura nele como uma estrela obstinada,
nesses olhos que não são feridas mas apenas
frescas margens,
que me devolvem, cada dia, incólume,
o azul das ondas
que contra mim, mortais, embatem.
.
Sem ti
sou apenas este vento
que investe contra
as árvores
e as desfolha longamente
muito antes do outono.
in Vento, sombra de vozes : antologia de poesia ibérica =Viento, sombra de voces : antologia de poesia ibérica / org. Joan Gonper, Pedro Salvado ; prólogo Gabriel Magalhães. Salamanca : Celya, 2004.
Mulher
Mulher que escondes em teu corpo
a alma secreta das paisagens,
com o seu fluir de rios e seus socalcos de pura dádiva e bondade.
Hoje, meu coração, talvez te revele que não serás, como ela, passageira.
Qualquer coisa de ti perdurará
na verde folhagem destas árvores
que vegetalmente te observam
e tua música imitam.
Porque eu te amo és eterna,
vives para além da invalidez do tempo,
és pólen fecundante que o vento não sonega,
pétala de lume a perfumar a brisa desta tarde,
Primavera que de ti própria vi brotar.
E nos céus antes áridos entoam já suaves sinos
anunciando que todos os dias serão agora teus,
só porque os fizeste de seda para mim.
.
Subscrever:
Mensagens (Atom)